20161215Animee-capaCerca de duzentos delegados e dirigentes sindicais de empresas fabricantes de material eléctrico e electrónico manifestaram-se, esta quinta-feira, em frente à sede da associação patronal ANIMEE, em Lisboa, para exigir a normalização do processo de negociação do contrato colectivo de trabalho, colocando termo ao bloqueio da contratação colectiva, e entregar a Carta Reivindicativa para 2017, em que se exige aumentos salariais justos e melhores condições de trabalho.
15.12.2016

 

Discriminações, salários desvalorizados, carreiras de nove anos, assédio moral, ritmos de trabalho infernais, precariedade... O cenário descrito em frente à sede da ANIMEE é de crise, mas apenas para quem trabalha. «Só em 2015, meia dúzia de multinacionais do sector obtiveram resultados líquidos superiores a 250 milhões de euros», disse Rogério Silva, coordenador da Fiequimetal. Em contraponto, os salários têm vindo a perder poder aquisitivo.

Direitos não caducam

O coordenador da Federação salientou que «os direitos não caducam» e que, «apesar do bloqueio da contratação colectiva e da tentativa de não cumprimento dos deveres patronais, a resistência dos trabalhadores e a sua luta têm permitido que os direitos que emanam do nosso contrato colectivo sejam respeitados nas empresas do sector».

Grandes multinacionais, como a Bosch, «fazem gala da inovação tecnológica, prometem novos investimentos e beneficiam de apoios comunitários», mas «impõem ritmos de trabalho violentos e desumanos» aos seus trabalhadores e «insistem em discriminar os mais jovens, em comparação com os mais antigos, designadamente no pagamento de prémios de antiguidade», explicou o coordenador da federação, que também é membro da Comissão Executiva da CGTP-IN, citando o caso dos trabalhadores admitidos desde 2013, que estão privados do direito a diuturnidades.
Denunciou ainda o recurso abusivo à contratação a termo, aliado ao desajustamento das carreiras profissionais. São precisos nove anos e meio para atingir o topo das carreiras de operador especializado e de logística, ou de seis anos, no caso dos técnicos fabris. «Mais do que a carreira de médico», acentuou Rogério Silva.

Manuel Correia, ilustrando o preço humano desta política, recordou que «com estes ritmos de trabalho só há uma opção: doença profissional». Segundo o presidente do SIESI, os trabalhadores têm demonstrado uma disponibilidade crescente para fazer frente à imposição de horários e ritmos de trabalho «cada vez mais desumanos». Deu como exemplo o que recentemente se passou na Hanon Systems, em Palmela: como resposta à intenção da administração de roubar o direito ao descanso no dia 23 de Dezembro, há muito conquistado, os trabalhadores marcaram greve para essa data.

Este sentimento, garantiu Sérgio Sales, do SITE Norte, partilham-no os trabalhadores da Bosch e da Delphi, que compreendem que os seus horários, a sua segurança profissional e os seus direitos são «alvos constantes» da administração. «Os trabalhadores estão fartos, estão disponíveis para continuar a luta», asseverou.

«A Delphi, de Castelo Branco, só vê lucros à frente», sintetizou Gabriela Gonçalves, do SITE Centro-Sul e Regiões Autónomas. «Eu já tive uma artrose e sei o que é querer carregar no botão da máquina e não conseguir», mas os que têm o poder na empresa «preferem recorrer ao assédio moral e à intimidação, a implementar um plano de prevenção».

Resposta à altura

À delegação sindical, que entregou a Carta Reivindicativa para 2017, um representante patronal disse que os patrões irão analisar o documento.
Para João Torres, da Comissão Executiva da CGTP-IN, que marcou presença na concentração, esperar a resposta da ANIMEE não basta, é essencial intensificar a luta: «Enquanto o pau vai e vem, folgam as costas. Hoje demos um sinal de disponibilidade para lutar. É isso que os patrões vêem. Temos de acentuar esses sinais», frisou.

Rogério Silva já tinha garantido que a federação tem a mesma disponibilidade de sempre para negociar, mas, até lá, não vai desarmar a luta. «Há décadas que a ANIMEE bloqueia a negociação colectiva mas, apesar disso, a luta tem permitido manter e aplicar a maioria dos direitos. Se não houver avanços, nos próximos meses, vamos agir em conformidade. Cá estaremos, para em cada empresa dar a resposta à altura dos acontecimentos», assegurou.


Ver também:
- Carta Reivindicativa para 2017 no sector FMEE

 

Algumas fotos da concentração