grevistas-1920
Grevistas impedindo os carros eléctricos
de circularem

Em 1920 Portugal debatia-se com uma grave crise económica, social e política. Nesse ano houve oito governos, um dos quais nem chegou a tomar posse. Isto mostra bem como era profunda a crise.

Com a I Guerra Mundial (1914-1918), a inflação aumentara, florescera o mercado negro e criaram-se novas fortunas. A República, herdeira da de 1910, já tinha pouco a ver com a propaganda dos anos da Monarquia. As feridas deixadas pelo conflito bélico e pela ditadura sidonista (1917-1918) não sararam mais.


A corrida aos cargos públicos torna-se escandalosa. A empregomania, o caciquismo, o compadrio e as cunhas tornam-se forma normal de funcionamento dos partidos republicanos. O número de funcionários públicos duplica (de 57 416 em 1911, para 105 407, em 1930). Os cargos dominantes caíram nas mãos de personalidades de segunda ordem, incompetentes ou mal preparadas. Enquanto a dívida pública aumenta sem cessar, a corrupção torna-se moeda corrente.
O custo de vida sobe em flecha, deixando os salários a grande distância. Em 1920 a inflação atinge uma das taxas mais altas, 70 por cento, enquanto os salários não ultrapassam os 50 por cento. Com a desmobilização dos soldados da Flandres e de África, e com o encerramento das indústrias que abasteciam o Corpo Expedicionário, o número de desempregados não pára de crescer.
Os trabalhadores lançam-se na emigração. Em 1918 são 11 321; em 1919 o número sobe para 33 709 e em 1920 alcança-se o recorde de 50 141!
Os sucessivos governos pretendem resolver a crise à custa dos trabalhadores. Suspendem e despedem operários e aumentam o preço dos artigos de primeira necessidade. Em Lisboa os géneros escasseiam, mas nos armazéns do porto encontram-se fechados 113 mil sacos de farinha, 94 mil sacos de trigo, 10 mil sacos de feijão e 1110 toneladas de batata.
Os trabalhadores dos pequenos centros sentiam duramente os efeitos da crise. Afastados da orgânica sindical, dispersos e sem organização, lançam-se nos assaltos às lojas e armazéns, indo buscar a comida onde ela se encontra.

Janeiro

Esta vaga de assaltos é antecedida de numerosas greves, desde o início do ano: dos corticeiros, no Barreiro, em Évora e em Lisboa; dos curtidores, em Guimarães; dos padeiros, em Braga; e dos telefonistas, descarregadores e pessoal de viação, no Porto, onde começa, a 19 de Janeiro, uma greve geral que envolverá para cima de 50 mil operários. Dão-se recontros com a Polícia e a GNR e, no dia 21, é aqui decretado o estado de sítio, são encerradas as sedes dos sindicatos e são presos dezenas de militantes sindicais. São mortos dois operários. O governador civil é obrigado a ceder e a pressionar o patronato para que faça concessões. A greve termina pouco depois, vitoriosamente.
A 8 de Março toma posse o Governo do coronel António Maria Baptista (o «Baptistinha», como lhe chamava o operariado), prometendo melhores dias para os trabalhadores. Mas manda metralhar os operários em greve, ordena buscas nos sindicatos. Suspende e despede trabalhadores, cumprindo as ordens do patronato, com destaque para Alfredo da Silva, proprietário do monopólio CUF.
Ao proletariado português não restava outro caminho que não fosse a luta. Esse é o caminho que irão seguir as classes profissionais mais numerosas de Lisboa, a da construção civil e a dos metalúrgicos, desencadeando um dos mais poderosos e prolongados movimentos grevistas de que há memória.

Março e Abril

O Sindicato Único Metalúrgico de Lisboa proclama, a 6 de Março de 1920, a greve geral na indústria metalúrgica. Era a primeira vez que os metalúrgicos levavam a cabo uma greve geral, a qual é seguida pela totalidade dos operários, mesmo por aqueles que, não pertencendo ao sector, eram filiados no sindicato. Era o caso dos que trabalhavam na Central Eléctrica, cuja greve deixa Lisboa às escuras.
No dia 11, a Federação da Construção Civil declarou greve geral em Lisboa, que se inicia com uma admirável coesão. Cinco dias depois, lançam-se em greve os trabalhadores do mobiliário. A greve será seguida por outras classes profissionais, como a dos tabacos, onde as mulheres, que eram a maioria, deram um exemplo de coragem e combatividade. Em assembleia magna, os trabalhadores da Companhia de Águas deliberaram fazer suas as reivindicações dos trabalhadores metalúrgicos e da construção civil.
Por toda a parte, a greve é geral e a unidade dos trabalhadores mais sólida do que nunca. O Governo de António Maria Baptista ordena o assalto à sede do Sindicato Metalúrgico, no dia 17, quando os operários da construção civil foram saudar os metalúrgicos. A GNR dispersou os manifestantes à espadeirada e assaltou a sede do sindicato, encerrando-a. A reacção dos metalúrgicos não se fez esperar. Na secção sindical de Belém reuniram-se com os da construção civil em protesto contra a repressão. O mesmo se passa nas secções de Almada, Oeiras, Poço do Bispo, Palma e Cascais.
Ao fim de uma semana, os trabalhadores da construção civil mantinham a firmeza e unidade, efectuando constantes manifestações. O Governo manda para a rua a Cavalaria e as Metralhadoras da GNR.
Os proprietários pressionam o Governo para que modifique a lei do inquilinato, visando o aumento das rendas de casa. Mas a Federação e o Sindicato Único da Construção Civil denunciam a sua atitude, obrigando-os a recuar.
Em todas as secções sindicais da construção civil os operários mantêm-se inabaláveis. Nas secções do Beato, Oeiras, Cascais, Montelavar, Sintra, Linda-a-Pastora e Seixal, afirmam que só retomarão o trabalho quando o Comité Central da greve determinar.

Repressão e resposta

Impotente para derrotar os operários em greve, o Governo no dia 22 lança a repressão. As sedes dos sindicatos do Pessoal Maior e Pessoal Menor dos Correios são encerradas, o mesmo acontecendo às sedes e às secções dos metalúrgicos e da construção civil, da CGT e da União dos Sindicatos de Lisboa. Dezenas de operários são presos no Forte de Sacavém e no Governo Civil. Vários trabalhadores são mortos nos recontros com a Polícia e a GNR, como foi o caso de Artur Lopes da Silva. Serralheiro do Arsenal da Marinha e destacado sindicalista, o seu funeral será uma grande jornada de protesto e de solidariedade operária.
Ao mesmo tempo que prende e assassina operários, o Governo apreende os jornais que noticiam a marcha dos acontecimentos. Reunida em sessão permanente, a União dos Sindicatos de Lisboa desenvolve uma intensa campanha de propaganda e de solidariedade para com os grevistas e suas famílias. Nos tabacos, cujos trabalhadores se encontram em greve há 40 dias, é distribuída pelos operários mais necessitados e por 113 crianças a quantia de 347 escudos, e ainda 1500 quilos de batata e 60 quilos de bacalhau.
Proteger as crianças era a primeira preocupação dos trabalhadores, quando se lançavam em greve. Foi assim durante a greve dos mineiros de Aljustrel, cujos filhos são recebidos e alimentados pelos operários de Lisboa, tendo 25 deles ficado a cargo do operariado de Beja, quando ali passaram a caminho de Lisboa. Foi assim com os filhos dos operários têxteis da Covilhã, durante a sua greve de 59 dias, os quais são recebidos pelos operários de Lisboa e do Porto.
Ao fim de mais de um mês de greve geral (34 dias para os operários da construção civil, 40 dias para os metalúrgicos e 60 dias para os dos tabacos) os trabalhadores obtêm, finalmente, a satisfação das suas reclamações: aumento de salários e libertação dos operários presos. A vitória tinha sido completa. Valera a pena lutar!

Francisco Canais Rocha
Historiador

Jornal da Fiequimetal N.º 9 - Abril 2012